17 de jul de 2010

Que seja doce.

Eu não preciso de um anel,
preciso da sua mão.
Não preciso de sobremesa
mas prefiro antes do almoço.
Prefiro café, sem nadinha de leite,
e sempre fresco, feito na hora
mas não muito cedo, que é pra não ter que pular da cama
Gosto dos ipês, floridos
prefiro os roxos,
que tingem de cor alegre os céus cinzas do inverno
tinhoso e chorão
Dos amarelos, prefiro a música
que valeu um raio de sol pela intenção amorosa
num sorriso sincero
que qualquer surpresa planejada jamais conseguiria
Não gosto de amarelo
prefiro azul
de verde, só o caderno
e as folhas do ipê que caem para dar lugar às flores
na árvore que fica com seus ares sinistros e provocantes de galhos desnudos
provida apenas de suas atraentes pétalas
incapaz de alimentar mais de um elemento
Já preferi o frio
já o calor, um dia não me incomodou
hoje, prefiro o cobertor.
Sou como criança
que segura a linha do balão de gás com toda a força que tem
que não confia no laço feito em torno do pulso
Eu gosto de margem de erro
que é pra usá-la a meu favor
sem levar tudo até as últimas consequências,
desde que eu esteja certa,
é claro
eu gosto de estar certa




“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”

Caio Fernando Abreu