22 de jan. de 2010

A loira do banheiro 1/3

Era noite de domingo, na verdade, já eram os primeiros minutos da segunda-feira, quando eles chegaram de volta à cidade depois do fim de semana na casa dos pais dela. Passaram no apartamento dela deixar suas malas e trocá-las por apenas uma bolsa com roupas pra passar uma noite fora, e seguiram de ônibus pra casa dele.
Soprava uma brisa gélida devido à garoa fina que caia, destoando das tipicamente quentes e abafadas noites de verão, apesar disso, ela saiu de casa usando um vestido leve, e por distração e um pouco de pressa, esqueceram o guarda-chuva sem tempo para subir de volta ao apartamento pega-lo. A chuva esfriava, mas não molhava, e no caminho até o ponto de ônibus apenas umideceram os cabelos e salpicaram a pele de gotinhas, que foram secas com as mãos um do outro.
Subiram na última linha, do último horário, dos ônibus daquela noite, e seguiram todo o caminho sozinhos, na companhia um do outro, do motorista e do cobrador da condução.
Quando desembarcaram, já em outro canto da cidade, viram sentado no banco da parada um velhinho, em trajes sociais como se fosse a uma quermesse de domingo, vestindo colete, paletó e chapéu.
O velho parecia uma alma perdida, parecia que havia perdido a alma, não apresentava reações, nem expressões, parecia alheio ao banco no qual estava sentado, alheio à hora que já marcava o relógio, que a julgar pelas suas vestes, ele carregaria no bolso, pendurado por um lindo cordão de prata.
Aproximaram-se, o homem continuava inerte. Quando já estavam bem perto e apreensivos de curiosidade e receio daquele sujeito estranho, ele reagiu, e num movimento repentino tocou o braço da garota
-moça, quando passa o próximo ônibus?
Ela olhou apreensiva para o companheiro, que respondeu
-só de manhã, acabou de passar o ônibus do último horário.
O velho desta vez segurou a mão dela
-moça, quando passa o próximo ônibus?
Ela sentiu-se incomodada e assustada, não gostava que estranhos a tocassem, e o comportamento bizarro desse estranho não melhorava a sensação.
-acabou de passar o último. Outro só de manhã.
-Pra onde o senhor vai?- perguntou o rapaz.
O intrigante desconhecido olhou pra ele, virou-se com calma soltando a mão da menina, e com ar de quem acabava de notar a presença da outra figura o fitou por breves segundos.
-Quero ir pra embora.
-Onde fica sua casa?
Silêncio seprucal. O velho abstraiu a pergunta e refletiu alto
-Precisava de um ônibus que me levasse embora.

17 de jan. de 2010

dias de chuva, dias de sol

Preciso escrever, mas esqueci o caderno verde em casa.
Como eu venho esquecendo tudo, a fonte do laptop, o celular, o guarda-chuva, esqueci o leque pra não passar calor naquelas salas de espera apertadas. Saí pagar a prestação da loja de calçados e esqueci o boleto em casa, não teve jeito, tive que voltar, e tornar a ir, tomando chuva na cabeça. Esqueci as fotos que devia ter trazido pra pregar nessa parede, esqueci o livro que tenho q ler antes que as aulas recomecem.
Esqueço os óculos para dirigir, até do capacete já esqueci. Mas não tiro as malditas lentes da cara quando entro no banho ou na hora dormir, e acordo com a textura da armação marcada nos lados do rosto.
Queria entender, mas esqueci o equilibrio na mochila dele.
E essas letras que insistem em trocar de lugar e se confundirem. O que há com minhas mãos ou quem sabe com a minha mente, que não me deixam perceber que estou escrevendo as palavras todas erradas nesse droga de computador.
Esses sonhos cotidianos que insistem em me tirar o sono, em me lembrar que a conta de telefone ainda não foi paga, ou o medo de que certas coisas aconteçam.
A vontade de mudar o jeito acomodado de fazer as coisas, e a acomodação que deixa isso tão dificil.
E esse jeito de não conseguir evitar tanta distração, de por vezes achar melhor não se preocupar tanto com tudo, mas o tempo todo ter tudo pendente porque não me preocupei quando deveria.
Odeio epifanias. Odeio ver que eu não sei viver assim, tão por conta própria, que quando eu mais pensava ter autonomia da minha própria vida, era quando eu mais me perdia. Nos outros e em mim mesma. E me escondia de mim, em mim.
Odeio as fotos de novembro passado e tudo que elas me lembram. Por que elas não me lembram novembro passado, me lembram hoje, ontem, semana passada, e todos os dias dormindo no sofá da sala.
São tantas coisas pra organizar. São tantas coisas que não precisam ser organizadas, basta serem feitas, mas bagunçam tanto minha cabeça que depois delas tudo tem de se arrumar novamente.
Odeio ter tantas coisas pendetes.
Vou fazer como a Carol, vou correr, nisso já resolvo dois problemas. Fugir de mim por um tempo, e as fotos de novembro passado.

4 de jan. de 2010

No começo do ano que já dava seu adeus final... 3/3

No começo do ano que agora já dava seu adeus final, pretendia não mudar o que dera certo no ano anterior, e aprimorar o restante.
Analisando bem, fez exatamente o contrário.
Ao que julgava bem sucedido, acomodou-se e esvaiu. O que imaginava desnecessário surgiu de repente e mostrou-se indispensável. E o impensável brotou de suas escolhas mal feitas.
Nem todas as mudanças foram boas, nem todas más. Nem todas as edificações foram planejadas, nem todas as pretendidas se realizaram.
Mas olhou para trás e viu que mudou enfim.
E continuava a fazer o que o papel pedia, talvez até mandasse, Feliz. E isso é o que importa.
Não faria lista de pretensões de ano novo, o ‘ano novo’ acaba com a velocidade da luz dos fogos artifício do primeiro dia do ano.
Para o próximo ano, Ser Feliz! Todos os 365 dias do ano, mesmo que para contribuir com isso tenha que realizar alguns dos antigos itens das antigas listinhas.

Um ano de pseudo atividade e devaneios esporádicos neste endereço
Obrigado a todos e qualquer um que passou por aqui.
E aos que fizeram parte de 2009, que deram rumo a ele e estão intrísecos no texto, agradeço pessoalmente.
Nos vemos este ano.

Um beijo pra minha mãe, pro meu namorado, e especialmente pra xuxa e pra xaxa

Perfil 'Quem sou eu" escrito para este texto.

30 de dez. de 2009

Escrito num pedaço de papel colorido... 2/3

Escrito em um pedaço de papel colorido, com letras garrafais e todo enfeitado, colado com a incrível fita dupla face num arranjo meio que permanente, longe da insignificância dos papeizinhos amarelos que logo perdiam a cola, acima das listas de pretensões, o objetivo maior “Ser Feliz!”.
Esse não era bem um lembrete, não era preciso. Tornara-se, na verdade, parte da decoração do quarto, tão bem desenhado fora. Inclusive, parte da mudança da decoração do quarto que pretendia fazer, o começo dela.
Pensando bem, estava muito diferente do começo do ano, o cômodo. Sua organização e as lembranças que ele trazia. A disposição dos móveis e o conforto que sentia ao entrar.
Estava muito diferente do começo do ano, sua vida. Não conquistou necessariamente os itens estimados, pelo contrário, realizou algumas das coisas que deixara fora da lista propositalmente, justamente porque não as almejava. O que não a impediu de alcançar. O que a assustou e surpreendeu, mas foi uma fantástica e maravilhosa falha nos planos.
Estava muito diferente do começo do ano, seu coração.
Estava muito diferente do começo do ano, sua fé.
E a vida ao fim do ano lhe parecia mais mágica, o mundo parecia maior, cheio de novas possibilidades, novos lugares, e ao mesmo tempo tão apertadinho, ao ponto de não caber mais ninguém além d’ele com sua fé e ela com seu coração, e esse mundinho era grande o suficiente pra que nenhum dos dois precisasse se apertar para que coubesse o outro, ainda assim, eles preferiam dormir espremidos num abraço.
E colocou um adorno a mais ao objetivo constante, que mais se enfeitava à medida que se cumpria. E, no fim das contas, interferiu para que os quilos conquistados a contra gosto nem importassem tanto.

A lista de objetivos de ano novo jazia... 1/3

A lista de objetivos e resoluções de ano novo jazia no post it colado na parede defronte à escrivaninha. Já se fixava com auxilio de um pedaço de durex, pois o adesivo dos lembretes já havia cedido há alguns meses. Continuava ali na esperança vã de que fosse lembrado em algum outro momento ao longo do ano.
Daqueles objetivos separados em duas categorias nomeados por ícones desenhados, indicando, basicamente, objetivos da alma e do corpo, até agora, nenhum realizado. Pensando bem, nem inédita a lista era, só mudavam as construções das frases, de ‘emagrecer 5 quilos’ para o começo do ultimo ano, para ‘emagrecer os 5 quilos que ganhei esse ano’ no final dele, no saldo, 10 quilos que lhe pesavam mais a consciência que a própria balança da farmácia na esquina, da qual já até cortava caminho. Ao lado das pequenas listas cheias de mudanças utópicas houve, por um tempo, um programa de dieta e exercícios, que foi retirado para dar lugar a algum aviso de compromisso da faculdade, ou de um filme na televisão que não queria perder, nem lembrava mais.
A relação dos hobbies era mais deprimente, tantas coisas que davam prazer em serem feitas, tão animadoras, mas que eram deixadas de lado em troca de horas dormindo no sofá da sala, ‘dormir menos e melhor’ outro item deixado de lado. Ela era estranha mesmo, enquanto a maioria dos universitários com a quantidade de coisas que ela tem pra fazer se priva de sono e sonhos, ela dorme bastante, até demais, e tem pesadelos. O que lhe custou mais um ano longe do objetivo sonhado ao entrar na faculdade, a formatura.Queria tocar violão, queria decorar seu quarto, montar álbuns de fotos fora do computador, reformar seu guarda roupas com o que ela já tinha, levar a diante o antigo projeto secreto. Queria.
Quis tanto.

18 de nov. de 2009

O problema é que eu te amo

Quando eu disse que amava demais, era serio.
Quando eu falei que minha vida se vinculava cada vez mais a sua, era verdade
E que meus pensamentos eram seus, meus planos e sonhos com você, meu tempo pra você, era sincero.
A priori, e não dou a mínima para utilização correta da expressão 'a priori', eram loucuras boas, se entregar por inteiro, sem gostar pela metade.
Usar todo o tempo livre possível juntos era só atender a uma anseio desesperado do coração, uma coisa tão boa, que nunca haveria de cansar.
E todas aquelas conclusões de o que não se deve deixar acontecer para não fadigar o relacionamento são postas de lado, pelo prazer da sua companhia como a coisa mais importante do mundo, com a certeza instantânea de que tamanha euforia nunca haveria de acabar.
E de repente a sensatez bate à porta e lembra que existe um mundo além desse nosso infinito particular.
A vida já era boa antes de você, e a sua boa antes de mim, então, dar um tempo pra'quela vida particular também não é tão ruim.
Antes verdades nuas, cruas e cruéis tão naturais, vão deixando que tudo se resolva. E já é preciso outro alguém pra desabafar aquilo que nem eu mesma consigo entender.
Coisas previstas, e que antes, no auge do meu equilibrio, eu pensei que saberia aceitar, mas meu sentimento extremista custa entender.
Antes simples como um beijo, sem que ainda o cotidiano e a convivência mostrasem suas faces dualisticas, que fazem tudo crescer e durar, e cada vez mais unir, e ao mesmo tempo, a necessidade de às vezes afastar, e a confusão da minha, com a nossa, com a sua vida, e com a gente, e de tolerar, entendendo que não tem nada de errado aqui.
Agora comum como um beijo.

O Problema é que eu te amo!

16 de out. de 2009

Histórias que nos contam na cama antes de gente dormir.

Um história pra gente grande dormir...

Era uma vez um menininho. Ele era um menino louco, e bem pobrezinho, e pra não passar fome ele tinha que trabalhar em uma coisa que ele não gostava [na verdade, ele tinha que trabalhar pra ter dinheiro pra ir festar nos finais de semana, mas desse jeito a história fica menos dramática], nesse trabalho ele brigava com uns caras grandes e fortes, o que era bem difícil, já que esse menino não era grandão, nem forte [isso não fazia muita diferença, já que ele brigava com os outros pelo telefone, mas não vem ao caso, ele não gostava do trabalho do mesmo jeito, porque ele era um bom menino, e não gostava de brigar com as pessoas ;D], então ele resolveu que seria um pensador quando crescesse e foi estudar numa escola de loucos, lá tinham muitos outros meninos e meninas loucos como ele, que queriam mudar o mundo, que faziam militância política [como o governo não deixava que eles estudassem isso, mudaram o nome para Ciências Sociais], mas esse menino estudava numa classe especial para loucos, uma tal de Filosofia.

Um dia, ele resolveu ir junto com um amigo dele, lá da escola de loucos, pra um lugar com outro tipo de loucos, cabeludos, barbudos, que usavam tachinhas e roupas escuras e gritavam coisas que não davam pra entender numa voz gutural. Lá nesse lugar ele encontrou perdida no mundo dos humanos, e pior, num lugar de loucos, uma fada, a fada do dente. A fada estava com uma amiga dela, que também era louca, e conhecia o amigo louco do menino louco, e ele começaram a conversar, a fada e o menino louco. Conversaram e descobriram que eles gostavam de uma coisa em comum, ela como uma fada, ele como um menino, gostavam de uma coisa mágica, que parecia com um circo, com palhaço, corista, trapezista, bailarina e soldado de chumbo, que também parecia com um teatro, algo como um teatro mágico.
Depois desse dia o menino ficou pensando na fada, mas eles eram de mundos diferentes, ele dos humanos, e ela do mundo mágico das fadas do dente, mesmo assim ele deu um jeito de conseguir falar com ela, com um tipo de ferramente para comunicação entre os mundos, o MSN. Então eles combinaram de se encontrar, pra conhecer um pouco mais do mundo um do outro, e foram pra um show do Barão Vermelho, aquele do desenho Corrida Maluca, sabe?
Desde então, eles não se desgrudam mais. Eles formaram um mundo só deles, um mundo meio mágico, meio louco, já que a fada também era louca, e o menino sabia fazer mágicas fantásicas, e ele foi mostrando pra ela como o mundo humano era mágico quando eles estavam juntos, e como um mundo louco era bem mais legal e interessante.