É, odeio mesmo. Essa conversa de estação mais bonita do ano não tá com nada.
Na primavera eu teimo pra não dormir de janela aberta, apesar do calor que começa a invadir as madrugadas. É que junto com a brisa, há uma revoada exagerada de insetos, e entre eles a mais temida e pavorosa barata, que na tão famigerada época de renascimento e renovação saiu do sono profundo do inverno e alveja as janelas abertas durante a noite.
Por mim podia fazer frio o ano todo. Nem esse sol escaldante me serve pra muita coisa boa, não numa cidade que quase não tem árvores nas ruas, longe da praia ou sem piscina.
Primavera, florzinha, borboletinha voando eu deixo com os românticos. Eu só sinto pernilongos beliscando meus tornozelos, escuto o canto horripilante da cigarra torcendo pra não cruzar com uma no meu caminho e passo calor durante a noite.
Eu tive um amigo romântico, daqueles no extremo, bem típico. doente. Ele amava perdidamente pessoas que ele mal conhecia, mas na mente dele a amada já tinha um perfil formado, e era perfeita. De um dia pro outro ele desapaixonava, e já amava outra, com a mesma rapidez que desamou e talvez até por conta do novo amor. Era um ciclo de idealizações. Não posso dizer que ele deixava de gostar de alguma quando ela se apaixonava também e os dois enfim se conheciam, nunca vi ele ser correspondido, coitado.
Pra tentar ver com clareza o que acontecia em volta, eu procurei, cavei defeitinho do falecido que tanto amava, por mais que tudo que me surgisse na mente fossem coisas lindas. Duvidei do que eu já não acreditava, por mais que fosse um bom consolo, pra não me perder de mim mesma, no meio das minhas próprias ilusões confortadoras.
E no final, não faz tanta diferença o que eu acredito, as coisas são ou não, e eu nunca vou saber. Só queria conseguir confiar que existe um bom lugar depois de tudo.
Deixo as flores com os românticos.
Eu prefiro os ipês, dos roxos, que florecem no inverno, exibindo vitalidade depois do outono.
Há 7 anos



