Eram duas e quarenta e dois da madrugada quando ela pegou a lanterna estrategicamente deixada no criado de cabeceira e saiu da cama. Apesar da noite quente de verão, calçou as pantufas para que o pisar ficasse mais silencioso. Foi ao banheiro, abriu a torneira e deixou que um cintilante fiapo de água escorresse, acendeu a luz, e fechou a porta, tudo apenas para, no caso de alguém na casa despertasse, atrair a atenção e imaginasse que era apenas uma ida noturna ao banheiro, e foi em direção ao quarto de estudos, com a lanterna calculosamente com as pilhas fracas para que não emitissem luz além da necessária pra que ela se guiasse pelo já tão conhecido caminho na própria casa, abriu a porta do guarda roupas e tateou por cima da pilha de livros que ele guardava até encontrar o que queria.
Voltou para o quarto já sem cuidado nenhum, aturdida pelo que viria a seguir, já tinha o que queria em mãos, a caixa de lápis de cor. Fechou a porta atrás de si, acendeu a luz, sentou na cama e pôs-se a desenhar.
São assim todas suas madrugadas de insônia, com todos os elementos e cores preparados e esperando ansiosos por elas.
Começo a desconfiar que a ânsia dos lápis coloridos e dela de preencherem a folha branca em mil tons que tem lhe tirado o sono com mais freqüencia.
Há 7 anos


