9 de out. de 2010

Querido diabo,

Hoje eu comecei o dia perdendo o ônibus por um beijo, mas só porque eu sou tonta e incrivelmente distraída.
Depois perdi o celular no ônibus, não o mesmo que eu já havia perdido, outro, outro ônibus. Ainda bem que alguém teve pena da pessoa tonta que deixou o telefone no banco e entregou para o cobrador, e ainda bem que o cobrador me devolveu. Depois disso me vesti de mãe de santo açougueira e sai na rua feito uma tonta de branco e jaleco na bolsa, já que é proíbido carregar jaleco na mão, a toa, porque não tinha nada pra eu fazer na clínica.
Pra acabar o dia bem, meu amado namorado passou mal com a comida que eu fiz.
Obrigado Deus, por eu ter um namorado tão paciente e querido, por estar na faculdade e poder bancar os caros custos investimentos que esse curso me faz ter. Ah, e por eu ter comida pra fazer pro meu namorado, coitado.
Mas que ser humano acerta um jornal dentro do próprio globo ocular, sem o reflexo automático de fechar as pálpebras?

10 de ago. de 2010

Só enquanto eu respirar


Vou me lembrar de você!
enquanto eu respirar.

17 de jul. de 2010

Que seja doce.

Eu não preciso de um anel,
preciso da sua mão.
Não preciso de sobremesa
mas prefiro antes do almoço.
Prefiro café, sem nadinha de leite,
e sempre fresco, feito na hora
mas não muito cedo, que é pra não ter que pular da cama
Gosto dos ipês, floridos
prefiro os roxos,
que tingem de cor alegre os céus cinzas do inverno
tinhoso e chorão
Dos amarelos, prefiro a música
que valeu um raio de sol pela intenção amorosa
num sorriso sincero
que qualquer surpresa planejada jamais conseguiria
Não gosto de amarelo
prefiro azul
de verde, só o caderno
e as folhas do ipê que caem para dar lugar às flores
na árvore que fica com seus ares sinistros e provocantes de galhos desnudos
provida apenas de suas atraentes pétalas
incapaz de alimentar mais de um elemento
Já preferi o frio
já o calor, um dia não me incomodou
hoje, prefiro o cobertor.
Sou como criança
que segura a linha do balão de gás com toda a força que tem
que não confia no laço feito em torno do pulso
Eu gosto de margem de erro
que é pra usá-la a meu favor
sem levar tudo até as últimas consequências,
desde que eu esteja certa,
é claro
eu gosto de estar certa




“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”

Caio Fernando Abreu

23 de jun. de 2010

Falanges

-A vida é muito cruel - Disse como uma constatação dramática, de quem procura discordância.
-Já está acabando - Tentou consolar, num tom amigável, com um gosto de fim de viagem longa.
-O que, a vida? - Encenou um espanto afetado
-Não, boba, essa dor.
-Ah... - Fingidamente desolada pela explicação óbvia do que ele quis dizer.
É, a vida. Ou praticamente isso. Mas preferiu não dizer.


Talvez seja melhor que ela continue. A vida é cruel, não apenas essa dor.
Às vezes tenho a impressão de que ao longo da vida temos uma meta mínima de sofrimento a cumprir. Alguns excedem a cota, outros tentam engana-la fingindo que a vida pode ser sempre feliz. Talvez também haja uma meta mínima de felicidade, algumas pessoas a ultrapassam sem esforço, outras apenas a cumprem por um forçar do ciclo vital, com essas felicidades que o sofrimento natural insistem em diluir, ou que esses não apreciam tanto quanto a dor. Acontece.
Talvez seja melhor que ela continue. A dor. Se ela fizer parte do meu mínimo sofrimento inevitável, o que pode acontecer depois que essa dor passar? Pelo menos é algo fisicamente tolerável, por enquanto. Mas se passar ou eu me acostumar, como faz a vida pra dar conta dos pontos do sofrimento?
Quer dizer, eu não acho que já tenha sofrido o suficiente por uma vida, para só ter ventos bons soprando de agora em diante. Pelo contrário, tudo anda bem, administravelmente bem.
Pode ser que a cota seja anual, ou por período da vida, sofrer bastante antes não te impede de sofrer depois. Ou ainda ,a pontuação de cada acontecimento varia de acordo com a nossa impressão dele, se foi muito triste, se foi muito feliz.
Sei que eu tenho medo do que pode vir estragar tudo isso.


Estou com cãibras de tanto me segurar no fio da vida, tentando não me perder na loucura.

11 de jun. de 2010

Anatomia

Bem vindos ao departamento de anatomia humana.
É aqui onde estão os cadáveres, usados para estudo e formação acadêmica de profissionais, e portanto merecem respeito, não brinquem com as peças nem chamem-os de 'presuntão', eles não gostam. Nem vocês vão gostar de lembrar dos corpos quando estiverem almoçando uma carne cozida ou comendo um presunto.
Existem três formas de chegar cadáveres para o departamento, indigentes do IML, que, se não forem reconhecidos por alguém da família são doados às universidades; por doação em vida, quando a pessoa registra num documento que deseja que seu corpo seja usado para estudo depois da morte, porém a família precisa concordar com a doação quando a pessoa vier a óbito; e a terceira maneira, alunos bagunceiros que vem ao laboratório brincar e tirar foto dos cadáveres. ah, é proibido fotografar.
Não precisam ter medo, lá não tem nenhuma alma viva além de nós. Os guardas que fazem a ronda noturna desse departamento já disseram que no meio da madrugada as luzes se acendem e os corpos fazem um forró todas as quartas, mas nunca foi relatado nenhuma festa durante a manhã, então não teremos transtornos. Quase não temos corpos femininos aqui, a maioria são de homens. As meninas que quiserem vir ao forró hoje a noite estão convidadas, mas só é permitido entrada de pessoas mortas.
O formol usado na concervação é muito volátil e tem cheiro forte, pode fazer arder o nariz e os olhos, quem se sentir mal, fique à vontade para seir e respirar um pouco de ar puro.

Podemos descer ao laboratório.



baseado em fatos imaginários
hahahah

13 de mai. de 2010

Começos [Framentos]

"Eu sei que você vê tudo o que eu faço
Eu sei que você lê tudo o que escrevo
Escrevo pra você"
Estrelas- Ludov

O caminho para decepção começa quando o subconsciente cria expectativas
então, se tudo não passar de um sonho bom,
já é tarde.
O dia já amanheceu e o tempo voou
O difícil não é dormir sozinha,
é acordar comigo mesma
com meu eu ainda dentro de mim
latejando
pedindo que se fechem os espaços que eu mesma abro
pra te colocar num lugar da minha vida que você não cabe.
antigas certezas que me deixavam deitar e dormir tranquila
e você chega de repente
pra me roubar do meu mundo seguro
e me levar pros sonhos acordados
pra me fazer perder o sono com o coração palpitando acelerado.
Agora eu sonho, mas não durmo,
tenho medo de acordar.
Meu mundo girou 360 graus,
estou de novo de ponta cabeça,
de novo sinto os ventos que um dia me trouxeram pra cá
ao mundo do medo, incertezas
perfumes, desculpas, beijos
meios.
Pra recomeçar a incansável busca por si mesmo.
No outro.


Esse texto não tem data, foi escrito em partes, em qualquer pedaço de papel, em dias de muita confusão sentimental.
Mas deve ser de maio/2009, se bem me lembro. Juntei vários trechos de palavras escritas quase soltas em uma mesma semana e amontoei como pude. Naqueles dias eu só precisava escrever, tirar da mente pra tentar explicar pra mim mesma. Ficaram pequenos pseudo textos repetitivos e confusos.

6 de mai. de 2010

Adeus. [Fragmentos]

Não quero que veja isso como um abandono, mas eu preciso ir. Encontrará os armários vazios, e desculpe pela carta em cima da mesa, mas foi a única maneira que encontrei... Pode encarar como covardia, porque é, eu realmente não suportaria falar olhando nos seus olhos. Talvez signifique que deveria desistir, mas é melhor. Só não quero que veja como desconsideração, muito pelo contrário. Eu apenas tenho q ir. O problema não é você. Nem eu. Eu apenas não posso ficar. Não, não pense que me desfaço dos laços da escova de dentes no armário porque quero sentir-me mais livre, essa liberdade solitária me amedronta e me esvazia. Mas quando apertar o tubo de pasta de dentes no meio e ‘cavocar’ o pote de margarina se tornam brigas está na hora de ir. Talvez eu não consiga qualquer tipo de relação duradoura e cotidiana sem estes espinhos, mas também não posso deixar que coisas tão bobas acabem com a nossa. A convivência nos irritou e tudo caminha para o trágico, prefiro ir agora e ter na mente sua expressão serena e amigável dormindo ao meu lado na ultima noite. Eu estou indo, prefiro mesmo abandonar a ver apodrecer em minhas mãos. Mesmo que isso deixe mais lacunas do que apenas as desavenças. Nos vemos aos finais de semana, daqueles em que o tempo para matar a saudade parece pequeno, e por isso tão bem aproveitado, sem tempo para prestar atenção no pote de margarina, nem, tampouco, de deixar a escova de dentes no banheiro. E já tenho que ir. Não vou substituí-lo, quando puder aceitar e celebrar a convivência, serás o primeiro apertador de pasta de dentes de quem me lembrarei.


Quem tentou adivinhar, errou.
Esse texto data do dia 02/04/2009, ainda do primeiro volume do Caderno Verde. Por enquanto vou coletar coisas que foram escritas antes e que eu julgue interessantes, pertinentes ao momento ou não, sobre acontecimentos específicos ou não. enfim, Fragmentos.


Quem sabe eu atualize mais vezes desse jeito